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Revendo os conceitos

Vou tratando de ralar bastante os joelhos… e cotovelos…. e….

Raquel

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Luzes e sombras sobre mim

Adormeci com o luar como uma manta fina e delicada sobre meu corpo, uma segunda pele, prata e perfumada. Mal podia esperar o amanhecer e ser coberta novamente com outras cores, agora pelo sol. O dia aparece e a luz chega a princípio aos meus pés enrolados um no outro e sobe deixando minha pele dourada e incandescente. O brilho quente escorrega deslizante, sem pressa e acompanho com meus olhos o seu percurso. Fico ali deitada na minha cama macia a esperar ser tomada, na totalidade, pelo nascer do sol. De repente, os infinitos pontos de raios solares chegam e apontam por todos meus ângulos, curvas, formas, dobras, pêlos e poros. O calor me abraçou forte, e sua energia infiltrou no meu corpo, a partir da minha pele sonolenta. Meus olhos entreabertos se abrem, e vejo o céu com suas cores refletidas no meu ser. Sinto-me parte necessária do universo, uma peça chave e que se encaixa perfeitamente em todas as outras. Levanto-me e me curvo perante tudo o qual minha janela estava a moldurar. Faço uma prece silenciosa e com pés descalços começo um dia que tem tudo para ser bonito como o meu amanhecer.

 

Raquel

Eu, Paul e a lua.

Meu relato do dia 21/11/2010. Show do Paul McCartney no Morumbi.

A espera:

Ao pisar em solos paulistas senti um clima irresistível. O aeroporto estava tomado por gente de todas as idades e crédulos, mas com algo em comum, os Beatles. Camisetas, tatuagens, cortes de cabelo e bagagens com referências aos garotos de Liverpool. Compartilhei meus sorrisos com todos os meus cúmplices, companheiros de Beatlemania, que iriam presenciar um espetáculo tão sonhado. Tudo parecia surreal e a ficha caia devagarzinho.

Enquanto estávamos a caminho do estádio, um filme passou em minha cabeça. Lembrei-me de todos os momentos em que as músicas dos Beatles estiveram presentes em minha vida. Por um momento me senti na década de 60, uma mocinha histérica de vestido rodado. Desejei ser ela por um momento e ver os Fab 4 cantar ao vivo. Voltando a minha realidade, o mais próximo que eu poderia chegar era ir a um show do Paul ou Ringo, ou os dois juntos. Emocionei-me ao me encontrar exatamente nessa situação, estava prestes a ver e ouvir o Sir. Paul cantar suas músicas para mim. Chorei baixinho, com poucas lágrimas, meio escondida, olhando a paisagem da metrópole.

A chegada tão esperada ao Morumbi foi incrível, uma multidão de Beatlemaníacos nos esperava. Filas enormes em caracóis, e aquele mesmo clima maravilhoso de cumplicidade. Todos ali com o mesmo propósito, mesmo sonho, mesma ansiedade e inquietação. Foi difícil encontrar o final da fila, e à medida que íamos andando em volta ao estádio mais encontrávamos pessoas emocionadas, deslumbradas, excitadas e sorridentes. Últimos da fila por um milésimo de segundo: estávamos a postos e prontos. Conheci pessoas adoráveis nesse momento. Não posso esquecer-me do casal divertido, com seus 30 e poucos anos, de Curitiba e pai e filho fanáticos de BH.

A fila andou, e todos vibraram. As horas dessa espera, por mais agradáveis que eram as companhias, estavam nos matando. Quatro horas para o início do espetáculo.

Quando entramos no estádio soltei gritos de alegria e corri para encontrar o lugar perfeito. Achado! Agora restou-nos uma nova espera, ainda mais agonizante. O tempo definitivamente não passava, cheguei a cogitar a hipótese de o relógio ter parado.

As horas se passaram, se arrastando. 9:30 da noite, e ansiedade tomou conta. Pulava incontrolavelmente, e estralava todas as juntas e ossos estraláveis do meu corpo.

Paul estava prestes a aparecer.

O show:

Antes de ouvir seu baixo em “Venus and Mars”, olhei para trás e vi milhares de cabecinhas, um batalhão de almas fascinadas por Bealtes. Pensei um pouco no poder que a maior banda de todos os tempos teve/tem/terá na vida das pessoas. Quantos apaixonados não ouviram “Love me do”, ou “All we need is Love”, e pensaram instantaneamente no amado/a. Quantas pessoas se emocionaram com Strawberry Fields forever” ou com a letra deslumbrante de “Tomorrow never knows”. E ainda, qual o número de jornadas transformadas ou que tiveram a trajetória desviada a partir de uma canção dos garotos de Liverpool. Não pude contabilizar essas minhas estatísticas, pois um Beatle entrou no palco nesse exato momento.

As luzes se acenderam e todos se exaltaram, gritamos em coro: We Love you, yeah, yeah, yeah. O show começou! Depois de “Venus and Mars”, veio “Jet”, onde abrimos a garganta como um alívio depois da grande espera: JET uuuuuuh! A primeira canção dos Bealtes foi “All My Loving”, onde a minha ficha caiu por completo, me emocionei pela primeira vez e dancei como nunca, lavando a alma, liberando aflições e mágoas de toda a minha vida. Vieram depois “Letting Go”, “Drive My Car”, “Highway” e “Let Me Roll It”. Até ai, já tinham aflorado diversos sentimentos únicos em mim. Olhei para o Paul e enxerguei alguém íntimo, que sabia de todos os meus segredos.

Paul foi ao seu piano e começou a linda e chorosa “The Long And Winding Road”. Um homem com seus 25 anos de idade a minha frente olha para o amigo, o abraça e diz entre lágrimas: “Cara, eu nunca chorei tanto na minha vida”. O Morumbi já estava dominado, 64 mil almas em festa. “Nineteen Hundred and Eighty Five”, “Let ‘Em In”, “My Love” (Essa música eu escrevi para minha gatinha Linda, mas hoje vai para todos os namorados, disse ele em um português louvável), “I’ve Just Seen A Face”, “And I Love Her” vieram logo em seguida. Paul tentava comunicar em português conosco, até dizer: “Esta noite eu vou falar português. Mas vou falar mais inglês.” Sempre bem humorado e carinhoso com o público.

A música que me marcou profundamente foi a próxima e dessa vez não me contive. Em “Blackbird” chorei igual uma criança, soluçava e tentava cantar junto com ele, mas a voz estava travada. Nessa hora recebi um abraço de uma recém conhecida do Rio, talvez foi a música que mais me emocionou. O choro continuou com a homenagem ao John em “Here Today”, aquela frase: “And If I say, I really loved you and was glad you came along” é de deixar qualquer um derretido.

Para enxugar um pouco as lágrimas do público Paul começou a baladinha gostosa em “Dance Tonight”. E sim Paul, “Everybody gonna feel alright tonight”. Depois veio a linda “Mrs Vandebilt”. Sir. Paul voltou a mexer com o estoque de lágrimas em “Eleanor Rigby” e posteriormente, no segundo momento mais emocionante para mim, em “Something”. Ver as fotos de George jovem, saudável no telão ao som de uma das músicas mais belas, cantada agora por Paul… tem que ter o coração forte. Com a frase “Beautiful man, beautiful soul” ele termina uma homenagem linda. Com lágrimas e um sorriso maravilhado meu corpo inundou uma explosão de sentidos, me senti no céu.

“Sing The Changes”, “Band on the Run”, “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, “Back In The USSR”, “I’ve Got A Feeling”, “Paperback Writer” vieram depois para extravasar meu corpo e espírito. Uma montanha russa de emoções.

“A Day In The Life / Give Peace A Chance” foi um momento especial. Todos começaram a soprar seus balões brancos. Erguidos, vestindo um Morumbi lotado. Ele diz: “Yeah, All we are saying is give Peace a chance, with white balloons, you are beautiful, you are something else”. Foi sublime.

“Let It Be” veio para deixar todos os corações ainda mais apaixonados. Depois “Live And Let Die” cheia de fogos e efeitos, muito especial.
“Hey Jude” tremeu todo o estádio. Todos sincronizados: na nananana Heey Jude, fantástico!

Paul apresentou a “minha banda fantástica” para todos nós e depois deu um tchauzinho. Não demorou muito e todos em coro diziam:  I dont know why you say goodbye, I say hello. O Sir. Paul voltou logo após as aclamações com “Day Tripper”, “Lady Madonna” e “Get Back”.

Mais um tchauzinho. Mas já sabíamos que ele iria voltar, claro. Trouxe para nós mais um momento de emoção com “Yesterday”, todos em minha volta derramaram lágrimas.

Ele estremeceu todos, ainda, com “Helter Skelter” e finalizou minha experiência mais incrível de vida com “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “The End”. Ele se despediu fechando os olhos e fazendo uma onomatopéia de sono e com um ronco, “roooonc”.

Pronto, acabou-se o que era doce.

Depois:

Fomos embora, e ai que sentimos as dores no corpo. A mochila estava pesada e os pés não cabiam mais nos tênis. Na volta conhecemos um moço de Honduras, sim Honduras.

Chegamos ao aeroporto por volta das 2 horas da manhã. Eu estava anestesiada, e não conseguia pensar em muitas coisas. Deitei no chão do aeroporto, com minha mochila como travesseiro e tentei dormir, um pouco em vão. O que era realidade e sonho se misturaram em minha mente, estava confusa.

Esperamos, aéreos, o vôo de volta. Antes do embarque chorei muito. A depressão pós Paul tinha chegado em mim.

Foi tudo tão perfeito. Melhor dia, sem dúvida, de toda a minha jovem existência. Ficou marcado em mim, nos meus filhos (que ainda nem existem) e estará registrado para o sempre. Obrigada, mais uma vez, meu Deus.

 

Raquel

Meu filho

Não tenho uma resposta racional para os comentários que irei pronunciar, apenas aconteceu e é um sentimento, talvez, evolutivo e natural. Apesar de tentar evitar pensar no futuro e passado ultimamente, deixei que essas divagações sobre esse assunto viessem, sem me preocupar.

Surgiu em mim, sem querer, um instinto maternal intenso. Quero ter um filho. Não que o querer signifique que eu venha a ter um filho, já que é completamente inviável tê-lo na minha idade, situação financeira, maturidade e, claro, sem um pai.

Escolhi seu nome (para os dois sexos) e os possíveis apelidos carinhosos. E desde que esse sentimento apareceu tenho feito planos sobre a criação, e pensado no amor incondicional que brotará no meu peito.

Serei uma mamãe babona, mas não neurótica, eu acho. Meu filho tem que ralar muito o joelho e ter uma cicatriz de uma queda cabulosa pra contar, quando mais velho, com sorrisos do acontecimento aos amigos. Meu filho vai andar de bicicleta comigo, desde quando ainda precisar de rodinhas para o equilíbrio. Ele vai assistir aos filmes da pixar, quantas vezes ele tiver interesse. Meu filho vai andar descalça em casa, e sujar a roupa com molho de macarrão. Vai usar jaquetinha de couro + moicano de gel no cabelo + AllStar pra ir no shopping tomar sorvete e se lambuzar, junto comigo, com a delícia gelada. Se for menina vai usar vestidinhos de criança, não aquelas mini-saias ou barrigas de fora, além de usar cabelinho curto Chanel e franjinha. Vai ouvir os clássicos do rock desde os 9 meses na barriga da mamãe, vai dançar ao som de Palavra Cantada e vai escutar música clássica suave pra dormir. Ele vai ter uma parede no quarto pra pintar e bordar, com todas as cores e idéias que ele imaginar. Meu filho vai fazer natação, mesmo que ele não queira, já que é um esporte muito importante no desenvolvimento da criança. Vai ter muito contato com a natureza e vai tirar leite da vaca, pelo menos uma vez antes dos 10 anos. Meu filho vai ser muito amado. Mas além de tudo isso, quero que ele seja muito feliz e que sejamos muito amigos.

Pode parecer louco pensar nisso tudo… Mas fui/sou muito amada e tive uma infância feliz, e agora, daqui a alguns anos, quero muito amar e viver novamente a infância por outro ângulo.

 

Que assim seja!

 

Raquel

 

Meu primeiro paragrafo

Poucos sabem, mas estou escrevendo um romance. Alice é uma menina-mulher de 23 anos. Ela vive em um mundinho particular ao lado do seu gato em um apartamento customizado por sentimentos. Intensa e verdadeira, ela percorre suas lembranças, memórias, cotidianos e sonhos a procura de alguém melhor. Sofre e da a volta por cima. Sofre e recomeça. Real, como todos nós. Carente, e não explícita, ela é uma incógnita para quase todos (os poucos) que a rodeiam. E assim começa o livro:

“O sabor forte e denso da bebida fez com que eu estremecesse e fechasse ligeiramente os olhos. Intensa, não hesitei em tomar mais umas doses. O líquido descia desatando todos os nós na minha garganta e minhas papilas gustativas se manifestavam cada vez menos. Um sorriso suave no meu canto esquerdo da boca dizia pra todo mundo o bem instantâneo que aquilo estava me fazendo. Todas minhas emoções anestesiadas e soltas de mim. Eu ficava olhando aqueles pedaços de sentimentos e tentava, mesmo que sem êxito, decifrá-los. Um tempo passou, e eu, em uma espécie de transe saio com as sandálias nas mãos em direção ao carro lá fora. As minhas condições para dirigir eram mínimas, e apenas entrei e deitei no banco de trás. Bem encolhidinha, e um pouco fora de mim, sussurrei palavras doces, e fiz uma espécie de cafuné nos meus próprios cabelos. Adormeci. “

Raquel

simplesmente saia e faça

Ao som de Eddie Vedder – Rise

“Gostaria de repetir o conselho que lhe dei antes: você deveria promover uma mudança radical em seu estilo de vida e fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar.

Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito do homem que um futuro seguro.

A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências […]

Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo ou em qualquer coisa que possamos experimentar. Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual e nos comprometer com um modo de vida não-convencional.

O que quero dizer é que você não precisa de mim ou de qualquer outra pessoa para pôr esse novo tipo de luz em sua vida. Ele está simplesmente esperando que você o pegue e tudo que tem a fazer é estender os braços. A única pessoa com quem você está lutando é com você mesmo […]

Espero que na próxima vez que eu o encontrar você seja um homem novo, com uma grande quantidade de novas experiências na bagagem. Não hesite nem se permita dar desculpas. Simplesmente saia e faça. Simplesmente saia e faça. Você ficará muito, muito contente por ter feito.”

Chris McCandless, em carta enviada a Ron Franz.

Raquel

Corro, simplesmente.

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Corria com o meu maior fervor. Ouvia nitidamente as batidas do meu coração e meu fôlego se exaurir. Porém, apesar do cansaço as passadas ganhavam velocidade, e meus cabelos presos balançavam freneticamente como um êmbolo de um relógio antigo, nas suas 12 e longínquas badaladas.  Não sabia verdadeiramente o lugar para o qual meus pés me guiavam, nem mesmo em qual direção eu estava indo.


Naquela tarde, o que mais me satisfazia era correr. Tudo deixado para trás, e cada vez mais distante de mim. Uma força interna alimentava minha energia, e eu não conseguia e muito menos queria parar por ali. Minha visão estava cega e todas as possíveis belezas daquele caminho se transformavam em nuvens feitas de passado e imagens da minha vida. Elas traziam para meu lado justamente aquilo que me impulsionava a fugir e que eu queria mais me distanciar.  Mais um daqueles paradoxos que chegam sem permissão em nossas vidas.


Meus pés estavam anestesiados, sentia-os vagamente. E em minha boca levemente entreaberta entrava um ar límpido, o qual supria minha sede de liberdade. Eu tinha a esperança de que quando eu chegar ao meu lugar, aquelas nuvens se desbotariam e tudo ao meu redor ganharia cor e brilho novamente.


Assim corri, como eu corri, substancialmente, como eu nunca havia corrido. Fugi, simplesmente. Fugi de todos menos de mim. Depois de muito cheguei ao lugar tão esperado e inesperado. Não posso dizer que tudo não valeu apena, pois nunca me senti tão livre antes. Porém aquelas nuvens ainda me acompanham e sei que elas estarão inevitavelmente aqui para sempre. Pois elas são parte de mim, e como eu já havia constatado, é impossível fugir de si mesmo.


Raquel