Eu fitava meu reflexo em um espelho grande e redondo, do meu tamanho, com o propósito de sentir a composição química e estrutural do meu ser. Meus olhos negros acompanhavam a minha pele morena clara e tentavam adentrar nas camadas subseqüentes do tecido epitelial. Buscava viajar pelos órgãos, sangue, células e organelas. Minha visão estava ansiosa para tatear tudo aquilo que vivia aqui dentro. Porém, ao invés de radiografar meu mundo invisível a mim, começou a vasculhar, sem nenhum pretexto, algumas partes obscuras e externas do meu corpo. Na pele elástica e lisa, surgiram resquícios de penas, outra parte feita de escamas e meu organismo tentava esconder o que estava tão claro. Meus olhos nervosos iam de minuto a minuto achando diferentes formas, vindas de outros seres que, até então, não faziam parte desse ser. Encostava nas diferentes texturas com minhas mãos trêmulas e a cada toque brotavam mais e mais desenhos da natureza. Uma enchente de lágrimas escorreu dos meus olhos, uma chuva regando meu próprio território. Sorri suavemente, mesmo sem conseguir entender, a princípio, o que ocorria e meu cérebro borbulhava idéias e possíveis respostas. Mas só no outro dia, depois de voltar ao meu estado normal, fui compreender que o exposto foi só o que eu queria ver.

 

(Sou composta quimicamente, estruturalmente e sentimentalmente, na totalidade, por matéria e energia de todos os elementos bióticos e abióticos existentes, simplesmente.)

 

Raquel

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