Andava por um caminho ordinário, tortuoso e cheio de mentiras. Não entendia como havia entrado naquela trilha escura, já que suas lembranças eram profundamente rasas e desbotadas. Caminhava devagar, com receio, uma cautela tenebrosa e sentia-se também temida. O olhar percorria até onde o horizonte alcançava e as saídas continuavam escondidas e difusas. Procurava sempre a nuvem mais escura do céu azul escuro, um abrigo improvisado e útil nos momentos mais difíceis. Entre alguns tropeços ocasionados por sua mente dispersa, perdeu as forças e sucumbiu-se ao chão. A cabeça latejava e seu corpo acabou se materializando, momentaneamente, em suas vertigens. Estava sã, mas preferiu se aconchegar entre a terra vermelha e se manter paralisada. A poeira quente e úmida subia e coloria seu corpo, e sem querer a protegia de olhares maldosos vindos de seus próprios pensamentos, ou não. Acabou adormecendo no meio da estrada, onde passavam outras almas, também mal acabadas. O vento da noite fazia um eco forte e remexia o solo fofo. Acordou do sono pesado parcialmente enterrada, obra da noite e fúria da ventania. Não podia sair dali, estava debilitada e sua fala era fraca, ao ponto de emudecer na iminência de um grito de socorro. Não a ajudaram, e a indiferença alheia chegava a assustá-la. Sem saída se enterrou nos próprios pensamentos, na esperança de encontrar ali suas lembranças, e talvez, quem sabe, também, um lugar melhor.

 

Raquel

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